abr 20, 2016 / by Ser e Pertencer / In Blog / Leave a comment

Ondas, nuvens e fragilidades

 

“Encostei-me a ti, sabendo que eras somente onda. Sabendo bem que eras nuvem, depus a minha vida em ti. Como sabia bem tudo isso, e dei-me ao teu destino frágil, fiquei sem poder chorar quando cai.” Cecília Meireles

A impermanência de todas as coisas, de todas as situações e pessoas, nos transforma em criadores de ilusões quando acreditamos falsamente que tudo permanecerá como está e que o ciclo harmonioso da vida não pressupõe mudanças. A não aceitação da vida em toda sua dinâmica de existência passageira e fugaz tira de nós a capacidade de viver com leveza e honestidade.

Os versos de Cecília Meireles vieram como um bálsamo consolador, como uma verdade libertadora diante dos apegos do coração frágil. Nos encostamos diariamente em situações e pessoas como formas de nos salvarmos da bruta realidade da impermanência de tudo. Nos encostamos numa profissão, numa atividade, em rotinas, na família, no casamento, na relação com os filhos, nos grupos de amigos e conhecidos. Mas esse processo de autoabandono em coisas, situações e pessoas nos causa muita dor e desilusão quando não olhamos conscientemente para tudo como onda, nuvem e fragilidade.

As ondas vem e vão! As ondas nunca são as mesmas nos seus processos de ir e vir! Essa é a beleza delas. Contemplar essa múltipla forma de ser, sempre nova, dinâmica e impossíveis de captar, nos traz a sensação de que o convite que se apresenta é o de vivermos o momento que nos harmoniza como forma de vida naquela hora, naquele instante. As nuvens estão no mesmo processo das ondas. Elas produzem formas, criam sombras, escurecem e trazem chuva. As vezes elas são tão brancas, que no azul do céu se destacam como uma composição do que pode ser um algodão suave e macio. Mas, elas não tem o mesmo padrão todos os dias, não são formadas da mesma maneira. Elas são, na verdade, livres e incaptáveis, longe de qualquer influência da nossa vontade.

Nossa fragilidade reside no fato de aceitarmos que a vida é essa dinâmica de novidade constante e diária. Paremos de chorar pelas ilusões construídas em cima de ondas e nuvens. Comecemos a ver a beleza das ondas e das nuvens na forma com que elas nos convidam a viver e ser. Todas as ondas e as nuvens possuem sua própria beleza, formato e cor. Ver a beleza nas variações é um modo de abertura para transformar-se e adaptar-se.

 

Boa semana!

 

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